3 Administrar é Ter Acabativa

Saber Acabar o Que Você Iniciou

Iniciativa é a capacidade que todos nós temos de criar, iniciar projetos e conceber novas ideias.

Algumas pessoas têm muita iniciativa e outras têm pouca.

Iniciativa tem sido um atributo cantado em verso e prosa por filósofos, cientistas, economistas e políticos.

Uma das correntes políticas mais discutidas chama-se inclusive “livre iniciativa“.

Vou mostrar neste artigo que todos estão equivocados.

De nada adianta “livre iniciativa” sem uma classe na sociedade preocupada com acabativa.

Acabativa é um neologismo que significa a capacidade que algumas pessoas possuem de terminar aquilo que iniciaram ou concluir o que outros começaram.

É a capacidade de colocar em prática uma ideia e levá-la até o fim.

Os americanos dividem o mundo em duas categorias, os dreamers e os doers, os sonhadores e os fazedores.

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Mas os seres humanos podem ser divididos em quatro grupos, dependendo do grau de iniciativa e/ou acabativa de cada um: os empreendedores, os iniciativos e os acabativos  e os mantenedores.

acabativa

Empreendedores são aqueles que têm iniciativa e acabativa.

Um seleto grupo que não se contenta em ficar na ideia e vai a campo implantá-la. São estatisticamente muito raros. Menos de 1% da população. São os Thomas Edison, Bill Gates, Steve Jobs, Irineu Evangelista (o Barão de Mauá), e muitos outros.

Iniciativos são os criativos, os que têm mil ideias, mas abominam a rotina necessária para colocá-las em prática.

São filósofos, cientistas, professores, intelectuais. Acabativa é o ponto fraco desse grupo. São os Thomas Moore, os Karl Marx, os Augusto Compte, os Rousseau que sonhavam com uma sociedade melhor, mas nunca delinearam como estas sociedades funcionariam de fato, achando que o amor e a fraternidade resolveriam todos os problemas operacionais. São os sonhadores utópicos.

Acabativos são aqueles que gostam de implantar projetos. Sua atenção vai mais para o detalhe do que para a teoria.

Não se preocupam com o imenso tédio da repetição do dia-a-dia e não desanimam com as inúmeras frustrações da implantação.

Nesse grupo está a maioria dos executivos, empresários, administradores e engenheiros.

A ênfase que muitos no Brasil estão dando ao empreendedor é equivocada.

Eles são muito raros e normalmente veem prontos, não dá para formá-los em MBAs e universidades.

Como iremos ver, o que o Brasil deveria esta incentivando é a formação de Acabativos, e incentivar a cooperação dos Iniciativos com os Acabativos.

Este grupo representa 80% da população e não somente 1%.

Esta é outra Missão do Administrador. Terminar o que 40% da população inicia mas não termina.

Essa singela classificação explica muitas das contradições do mundo moderno.

Empresários, normalmente associados à “livre iniciativa” descobrem rapidamente que ficar implantando suas próprias ideias é coisa de narcisista. E  portanto, egoísta.

Existem muito mais pessoas com excelentes ideias do que pessoas capazes de implantá-las.

É por isso que empresários ficam ricos e intelectuais, professores – entre os quais me incluo –  morrem pobres.

Temos ideias, mas não sabemos implantá-las.

Mesmo se soubéssemos, jamais implantaríamos ideias de outros intelectuais.

No ramo intelectual o narcisismo e o egoísmo imperam, justamente o contrário do que pregam.

Se Bill Gates tivesse se restringido a implantar suas próprias ideias teria parado no Basic.

Ele fez fortuna porque foi hábil em implantar as ideias dos outros – dizem as más línguas que até copiou algumas.

Essa classificação explica porque intelectual normalmente odeia empresário, e vice-versa.

Há uma enorme injustiça na medida em que os lucros fluem para quem implantou uma ideia, e não para quem a teve.

Só que uma ideia somente no papel é letra morta, inútil para a sociedade como um todo.

Um dos problemas do Brasil é justamente a eterna predominância, em cargos de ministérios, de professores brilhantes e com iniciativa, mas com pouca ou nenhuma acabativa.

Para o Brasil começar a dar certo, precisamos procurar valorizar mais os brasileiros com a capacidade de implantar nossas ideias.

Tendemos a encarar o acabativo, o administrador, o executivo, o empresário como sendo parte do problema, quando na realidade eles são parte da solução.

Iniciativo almeja ser famoso, acabativo quer ser útil.

Mas a verdade é que a maioria dos intelectuais e iniciativos não tem estômago para devotar uma vida inteira para fazer dia após dia, digamos bicicletas.

iniciativo vive mudando, testando, procurando coisas novas, e acaba tendo uma vida muito mais rica, mesmo que seja menos rentável.

Por isso, a esquerda intelectual e a direita neoliberal conviverão às turras, quando deveriam unir-se.

Há um ditado chinês, “Quem sabe e não faz, no fundo, não sabe” – muito apropriado para os dias de hoje.

A Função Primordial de um Administrador é ser o acabativo de uma sociedade.

É se prestar para colocar em ação as ideias, e tirá-las do papel.

O sistema que deveríamos apoiar é o de “livre acabativa“.

Nem o conceito correto acertamos.

No próximo capítulo revelarei a função mais nobre de um Administrador.

A de realizar os sonhos dos outros.

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A Missão do Administrador by Stephen Kanitz is licensed under a Creative Commons Attribution-NoDerivatives 4.0 International License, except where otherwise noted.

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3 Responses to Administrar é Ter Acabativa

  1. Humberto Rocha on 18 de julho de 2014 at 19:04 says:

    No parágrafo citado abaixo podería-se incluir Irineu Evangelista (o Barão de Mauá)? Ou ele não teve acabativa suficiente para ser caracterizado como empreendedor? É certo que ele iniciou projetos que foram além da capacidade administrativa de uma única pessoa, mas a forma de conduzir os negócios foi extremamente inovadora para os padrões da época.
    “Um seleto grupo que não se contenta em ficar na ideia e vai a campo implantá-la. São estatisticamente muito raros. Menos de 1% da população. São os Thomas Edison, Bill Gates, Steve Jobs, e muitos outros.Temos ideias, mas não sabemos implantá-las.”

    • Humberto Rocha on 18 de julho de 2014 at 19:06 says:

      Só corrigindo: a última frase foi transcrita por engano (Temos ideias, mas não sabemos implantá-las.) .

  2. Bruno Rogers on 25 de julho de 2014 at 19:50 says:

    Ótimo.

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