1 A Função do Administrador 200 Anos Atrás

O Reconhecimento da Função de Administrador é Muito Recente

Um dos primeiros a perceber a necessidade de uma profissão e uma função administrativa foi Jean-Baptiste Say, um administrador industrial que escreveu um dos primeiros tratados de Economia, A Treatise on Political Economy, 1803.

Say foi o fundador da primeira Escola Superior de Comércio da França, com o objetivo de formar administradores profissionais para as indústrias têxteis e comércio em geral.

A Escola Superior de Comércio de 1819 foi o primeiro reconhecimento da necessidade de formar administradores profissionais, e organizar melhor o comércio e a indústria francesa  e acabar com o amadorismo da empresa familiar.

Em 1810, Say escreve uma frase que temos repetido e que tem sido a bandeira de todos os formados em administração no Brasil.

“Sob todas as formas de governo, um Estado pode prosperar, se este for bem administrado.”

Algo que a sociedade e intelectualidade brasileira ainda não percebeu. Mesmo no socialismo, a forma de governo preferida por nossos intelectuais, os administradores são necessários.

Nossos intelectuais de esquerda têm entregue o poder administrativo a economistas de esquerda, e nosso crescimento tem sido pífio como consequência, e a qualidade dos serviços e eficiência do governo lamentável.

Say é nosso guru, e já dizia 200 anos atrás o que estamos lutando por aqui para tornar o governo brasileiro mais bem administrado.

O Brasil, devido à influência portuguesa de Pombal, foi um dos países que imediatamente mais se interessou pela nova escola francesa, tendo enviado cinco alunos brasileiros para a turma de 1824.

Os Estados Unidos enviaram somente dois alunos, Alemanha quatro, Portugal dois.

Comparado aos demais países, estávamos bem na frente.

O filho de Say, Horace Émile Say, veio até morar no Brasil e escreveu “A História das Relações Internacionais entre a França e o Brasil”, e foi árduo defensor do Brasil quando voltou a viver na França.

O Brasil poderia ter se tornado o que os Estados Unidos são hoje, se este interesse pelo estudo de administração tivesse se aprofundado.

Esta deve ter sido mais uma das oportunidades perdidas pelo Brasil, ao longo de sua extensa história em recusar ideias inovadoras.

Mas como veremos no livro “Administração e o Futuro do Brasil“, o Brasil desenvolveu subsequentemente uma ideologia popular que a função de administrador poderia ser exercida por qualquer um.

Adam Smith e Karl Marx dois autores muito influentes na nossa direita e esquerda respectivamente escreveram sempre contra a função do administrador.

Adam Smith em seu livro “A Riqueza das Nações“, desaconselhava a contratação de administradores preferindo a “mão invisível do dono do negócio”.

The directors of such companies, however, being the managers rather of other people’s money than of their own, it cannot well be expected that they should watch over it with the same anxious vigilance with which the partners in a private company frequently watch over their own.

Negligence and profusion, therefore, must always prevail, more or less, in the management of the affairs of such a company. 

Riqueza das Nações é a bíblia das nossas escolas de economia, de onde surge a grande maioria de nossos Ministros da Fazenda, Ministros da Educação e Ministros e Secretários de Planejamento.

Portanto, vejam o estrago de um livro estrangeiro na cultura de uma nação como a brasileira.

Marx, como todos sabem, queria que administradores e capitalistas fossem enforcados.

O que literalmente ocorreu na Rússia, e a produção russa despencou 34% em 1918.

Segundo Antonio Gramsci, que também advogava o fim do administrador e a instituição de autogestão dos trabalhadores em:

The application of union principles to the textile industry has allowed in Russia a reduction of the bureaucracy from 100,000 employees to 3,500.

Chamava administradores de burocratas.

Administradores contadores, operadores logísticos, orçamentistas e apontadores de custos eram todos vistos como burocratas, parasitas do sistema capitalista.

A Rússia eliminou, além do primeiro escalão das empresas como recomendava Maquiavel, todo o segundo escalão da sociedade soviética: os gerentes, supervisores, contadores, supervisores, orçamentistas, auditores, que considerava lacaios do capitalismo.

No Brasil este mesmo pensamento levou ao fechamento de todas as escolas de administração, como iria fazer a Ditadura Vargas no Brasil em 1949 vide a lei 7988 de 1945.

Max Weber também disseminou que administradores, gerentes, supervisores, orçamentistas, auditores se tornariam parasitas e burocratas, e que precisavam ser coibidos.

Não mencionou uma única vez que uma das formas de impedir a burocracia é criar escolas de formação para estas funções.

Você leitor já deve ter usado o termo “Burrocrata”, concordando com nossa afirmação de que estes cargos precisam de pessoas treinadas e não desqualificadas como muitos o são.

Marquês de Pombal e Say foram dos poucos que desde o início perceberam a importância de formar estes cargos.

Administradores, chamados de master agents, ou empreendedores por Say, são os responsáveis pela produtividade.

The master agent shifts economic resources out of an area of lower and into an area of higher productivity and greater yield.

The master agent is one who undertakes an enterprise, especially a contractor acting as the intermediary between capital and labour”.

Adam Smith, como já vimos, achava o contrário.

Que tudo chegava na mesa do consumidor na hora certa, na quantidade certa, com a qualidade certa, graças à mão invisível do mercado, o egoísmo do padeiro e do açougueiro.

Santa ingenuidade em que milhares de economistas clássicos acreditam até hoje. Tanto que fecharam as nossas escolas de administração quando criaram suas escolas de economia. Lei 7988/45

Karl Marx e Antonio Gramsci achavam que trabalhadores poderiam autogerir as fábricas tomadas dos “capitalistas”, sem problema nenhum.

Say foi o primeiro a perceber que entre o capital e o trabalho precisava haver um elo, um profissional que garantisse o preço certo na quantidade certa.

Seus livros são obrigatórios para qualquer Administrador, e infelizmente seu tratado foi duramente criticado por Keynes, na sua “Teoria Geral do Emprego”, onde começa detonando a teoria de Say.

Como todo bom estudante de economia, e acreditando em Keynes, não vi na época necessidade de estudar uma teoria supostamente equivocada, a de Say.

Somente quando passei a desconfiar que Keynes estivesse  errado, e passei a procurar alternativas ao Keynesianismo é que me dei conta que esta procura deveria ter começado com Say.

Talvez Say estivesse certo desde o início, e Keynesianismo foi um desvio infeliz da história econômica do mundo.

Say aponta um dado que Marx infelizmente não percebeu, aliás ele sequer o leu.

Os primeiros capitalistas não foram capitalistas.

Os primeiros capitalistas foram os engenheiros, que por sorte nasceram ricos e tinham vontade de empreender e dinheiro poupado suficiente para investir no negócio.

Say foi um deles, estudou Administração na Inglaterra, trabalhou em várias empresas, uma de seguros, e abriu uma empresa de fiação e tecelagem com 400 funcionários em Calais.

E vivia com dificuldades financeiras, como os empreendedores brasileiros têm até hoje.

História bem diferente daquela contada por Karl Marx, filósofo que nunca trabalhou numa fábrica na vida.

A ideia de capitalistas idiotas, que não entendiam de nada e ganhavam fortunas, jogando golfe o dia todo graças à espoliação sistemática dos seus funcionários era totalmente falsa.

Os primeiros engenheiros mas administrativamente incompetentes logo quebraram ou foram roubados pelos próprios funcionários e especialmente seus contadores.

O problema do capitalismo no seu início era justamente o contrário:

Falta de administradores competentes e que estivessem dispostos a arriscar suas pequenas fortunas num negócio novo e competitivo.

Say, um administrador, achava que a nova renda criada deveria ser distribuída entre os funcionários, os administradores e os investidores das máquinas inventadas. Algo que acabou ocorrendo no capitalismo, e que Marx não percebeu.

Trabalhadores passaram a ganhar mais, administradores passaram a ganhar pela sua função de administradores, bem como os contadores, advogados, vendedores, distribuidores, transportadores etc.

E para melhorar a situação de todos, os preços dos produtos caíram vertiginosamente, numa tendência que dura até hoje, beneficiando todos, especialmente os trabalhadores e os mais pobres.

O erro de Karl Marx foi não perceber que no início, engenheiros, administradores e investidores eram a mesma pessoa, razão talvez porque Marx chegou à conclusão de que ganhavam demais.

Mas com o tempo as funções de engenheiro, administrador e investidor se separaram, e tragicamente Karl Marx argumentava, indiretamente, que só o trabalhador merecia receber os ganhos de produtividade criado por estes engenheiros, administradores e investidores, a famosa “mais valia marxista”.

E Marx argumentava que administradores, gerentes, contadores, engenheiros, advogados, gerentes de recursos humanos, operadores logísticos, inspetores de qualidade, orçamentistas, propagandistas, eram no fundo capitalistas, e portanto mereciam quase nada, e na Rússia foram literalmente eliminados.

Esta é também a cultura brasileira, pelo menos entre intelectuais, jornalistas, escritores e artistas.

É nesta enrascada que o Brasil se encontra, e talvez esta seja a primeira missão dos jovens administradores brasileiros.

Mostrar que Adam Smith, Karl Marx, Engels, Max Weber, John Maynard Keynes, e a grande maioria dos intelectuais brasileiros estão errados, criminosamente errados, e que estes estão retardando o progresso, a inclusão social, e o fim da pobreza neste país.

Vocês têm uma missão e tanto a cumprir.

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5 Responses to A Função do Administrador 200 Anos Atrás

  1. Henrique Arake on 3 de julho de 2014 at 10:57 says:

    Dois pontos. Faltou um “s” na citação do Say em maSter.

    Segundo, talvez fosse interessante citar o exemplo da Varig, que foi gerida com foco exclusivo nos interesses do trabalhador e foi a falência.

  2. Dan Reznik on 3 de julho de 2014 at 17:24 says:

    a palavra “fiação” abaixo(extraida do texto este capitulo) seria um typo para “filial”?

    …e abriu uma fiação com 400 funcionários em Calais….

  3. Leonardo Pimentel on 4 de julho de 2014 at 0:15 says:

    Estou achando o texto com um certo conteudo politico!!!

  4. Bruno Rogers on 25 de julho de 2014 at 19:36 says:

    Say jamais discordou que o mercado fosse coordenado pela mão invisível.

    “Discípulo de Adam Smith, Say fez muito para divulgar o trabalho do escocês no continente Europeu, embora A Riqueza das Nações tenha sido traduzida para o francês quando Say tinha apenas 12 anos de idade. Assim como Smith, Say criticou fortemente as doutrinas do mercantilismo (ou, para os franceses, colbertismo) e procurou substituí-las pelo pensamento mais liberal. Teve a alegria de ver seu livro passar por cinco impressões durante sua vida. O Traité era tão popular nos Estados Unidos que a tradução em inglês serviu como um texto padrão de desenvolvimento econômico em faculdades e universidades americanas durante grande parte do século XIX.”

    Say advogava sim, a administração dos recursos nas organizações, e nunca a administração dos mercados. A mão invisível é ainda hoje mal interpretada.

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